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DOCUMENTOS DA APA

o silêncio das casas vazias

A Morte de Sardanapalo - Eugène Delacroix

Que dizer ante o terrível saque do Museu de Bagdade? Fecha-se-nos na garganta o nó cerrado da barbárie e só o silêncio resta, o silêncio pesado dos ocasos no deserto.

Em Regarder, Ecouter, Lire Levy-Strauss afirma que quando a humanidade se tiver esfumado nada restará das paixões e discursos humanos. Apenas a Arte sobreviverá ao passar dos séculos. Das pinturas paleolíticas de Altamira ao misterioso sorriso das estátuas etruscas, dos monumentos megalíticos de Carnac às pirâmides egípcias, as manifestações artísticas, mesmo quando desprovida das motivações mais profundas das sociedades e indivíduos que a criaram, continua a testemunhar o génio humano e a inspirar e alimentar o suceder das gerações.

Ora, é precisamente de uma fatia dessa eternidade que nos privaram aqueles que consentiram no saque do Museu de Bagdade, colocando-se, assim, no mesmo patamar infernal dos inomináveis que destruíram a biblioteca de Alexandria, dos que queimaram livros nas praças de Berlim e dos que destruíram a tiros de morteiro as estátuas monumentais de Buda no Afeganistão. Mesmo após o escândalo internacional causado por este saque, sítios arqueológicos como Niníve, Ur ou Babilónia, foram, com a complacência dos soldados da coligação, pilhados por caçadores de tesouros profissionais a soldo de milionários ocidentais e japoneses, deixando o terreno com o aspecto de um queijo suíço.

Ao agir deste modo -- por dolo, negligência, ignorância ou estúpido fanatismo -- lançou-se um pouco mais de escuridão sobre a humanidade, calaram-se as vozes de milhares de anónimos artistas, poetas e filósofos, negou-se-lhes o direito à eternidade e a todos nós uma riquíssima herança. É nosso dever pedir responsabilidades ao Napoleão de pacotilha que permitiu que à humanidade fosse roubada uma tão importante parte da sua memória colectiva. Também não ficará esquecido o papel de todos os governos que, tal como o nosso, apoiaram tácita ou efusivamente esta barbara invasão.

Alguém menos sensível às questões património, e com a falta de imaginação caracteriza os utilizadores de adágios populares, poderia ter a veleidade de dizer: vão-se os anéis, fiquem os dedos, mas não, nem isso, já que a violação não se ficou pelo património, a monstruosidade foi tal que roubaram-se os anéis, cortaram-se os dedos, pilharam-se as pulseiras, deceparam-se as mãos, surripiaram-se os torques e amputaram-se os braços, deixando apenas um corpo queimado e retorcido, "maciçamente" privado dos seus membros, como o tristemente célebre menino cujas imagens correram os noticiários de todo o mundo.

Se eu fosse norte-americano, exigia ao senado que condenasse o responsável máximo por esta ignomínia à única pena que ele merece, e talvez aquela que mais o feriria na sua texana vaidade: a Damnatio Memoriae. O seu nome seria riscado de qualquer menção oficial; os registos do seu nascimento, casamento, progenitura e morte seriam apagados; todos os seus retratos seriam eliminados e o próximo presidente dos Estados Unidos da América sucederia, para todos os efeitos, a Bill Clinton.

Só o silêncio pode apagar esta infâmia. Só ele, perante o pungente sorriso de Sardanapalo.

Chaves, 5 de Junho de 2003

Sérgio Carneiro

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Última actualização:
27 de Maio de 2011